–  Olha, a realidade é que não queremos e não precisamos te pagar bem, mas, cá entre nós, meu amigo, veja QUAAAAAAAANTOS benefícios nossa empresa oferece…

Eu gostaria que este fosse mais um daqueles artigos cheios de som e fúria do Marcos Tadeu. De preferência, um dos que levantam polêmica por onde esse cretino passou, talvez até inflamando ex-chefes que não podem ter o prazer de demiti-lo.

Mas, infelizmente, não é esse o caso, embora eu, como bom taurino com ascendente em leão (descobri por esses dias), adore uma revanche e não fuja de uma boa briga. No caso, o tema de hoje é a farsa do no dress code nas vagas de emprego de marketing.

O que é o dress code

O Dress Code nada mais é do que o código de vestimenta que você deve seguir ao trabalhar em determinada empresa. Se deve usar uniforme, terno, gravata, etc. Algo que pode ser muito chato, caso você precise ter sua roupa de trabalho todos os dias sempre bem passada e limpa, pronta para usar, concorda?

O grande problema é que as empresas têm se aproveitado dessa “chatice” para transformar o “No Dress Code” em benefício.

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No Dress Code em vagas de emprego de marketing

Tudo o que vou discutir aqui, meus caros, é fruto de uma rápida busca no respeitável Trampos.co, site que elenca algumas das vagas de emprego mais expressivas do mercado de comunicação e marketing do Brasil. No entanto, acredito que os benefícios como o famigerado “No Dress Code” sejam uma tendência em todos os sites especializados em emprego. Sim, eu disse todos.

A questão é: para justificar os baixos salários e a alta carga de trabalho, muitas empresas espalhadas pelo país recorrem ao expediente mais chulo: inchar os benefícios com argumentos fantasiosos ou simplesmente fúteis, que podem ir desde um bicicletário à disposição dos funcionários até um day off para assistir à estreia do próximo Star Wars – e que me perdoem os fanáticos pela franquia, ok?

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No dress code para reduzir o turnover?

Com isso, querem deslumbrar candidatos no sentido de mostrar que a empresa comunga dos mesmos valores, ídolos e sabores de sorvete que ele, quando na verdade, trata-se nada mais que uma cortina de fumaça para passar por cima de direitos e, em termos administrativos, a elevadíssima taxa de turnover – o que, em bom português, significa rotatividade de funcionários em função de “n” motivos, a citar:

  • Salário pouco competitivo;
  • Gestores incompetentes;
  • Ambiente de trabalho tóxico;
  • Infraestrutura de trabalho inexistente;
  • Baixa valorização do funcionário;
  • Falta de política de RH.

O temível “No Dress Code“, apontado como benefício nas vagas de emprego atuais, serve apenas para apresentar uma falsa realidade de que, na pior das hipóteses, você poderá ser você mesmo dentro do seu ambiente de trabalho, mantendo sua individualidade, seu chinelo de dedo e sua (falta de) vaidade, ainda que ganhando muito mal, trabalhando fins de semana e sendo terrivelmente desrespeitado por seus “superiores”.

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Na verdade, o que acontece é que o “No Dress Code” é uma cilada, uma sádica armadilha para se raptar não só a vitalidade e o tempo (com banco de horas, é claro), mas a personalidade do funcionário, que, em pouco tempo, vai se ver “obrigado” não só a se vestir, mas se comportar e agir conforme a maioria ou, pior, como o chefe, extremamente vulnerável a um ambiente de trabalho dominado pelo bullying.

Afinal de contas, somos livres, somos “No Dress Code“. Bla, bla, bla… No fundo, é pura demagogia extraída de blogs moderninhos lá de fora.

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Mas, pior do que maquiar os benefícios é tentar passar para o pobre diabo em forma de candidato a impressão de que se é extremamente feliz trabalhando na empresa X ou Y. Happy Hours, Smart Hours, enfim, os nomes mais criativos são aventados para causar o efeito de que a vaga, em questão, é a melhor coisa com a qual o candidato poderá se deparar na sua vida. Efeito narcotizante.

E o pior de tudo é que isso muitas vezes não passa de um artifício leviano para estimular funcionários a fazerem milhares de selfies e postagens nas redes sociais a fim de chancelar para o público a imagem de empresa amigona na qual todos têm vontade de trabalhar. Resultado? As filas de candidatos aumentam na mesma proporção que a frustração daqueles que efetivamente são contratados. Não tão “happy” assim, né?

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Espetacularização de benefícios

Tudo bem, Marcos, essa é a tendência das vagas de emprego atual, uma espécie de “espetacularização” do que é oferecido como forma de minimizar o que não é oferecido e, mais ainda, ocultar o desgaste ao qual os funcionários desta ou daquela empresa são submetidos – vide a polêmica “planilha das agências“, com denúncias anônimas de assédio sexual, entre outros tantos abusos cometidos diariamente.

Mas há uma luz no final do túnel para essa porra-louquice toda?

Bom, trata-se de um cenário de fato deprimente, onde “parecer ser” vale mais do que “ser”, como eu mesmo já havia antecipado com o termo “cabeça de bacalhau do mercado“, e no qual nem empregados, tampouco empregadores, sabem muito bem o que querem.

Uma ótima alternativa à farsa do “No Dress Code” – e que os melhores heads do ramo já vêm adotando – é a prática do home office, que, além de dar uma real autonomia ao funcionário, gera muito menos custos para a empresa em termos de energia elétrica, aluguel de imóveis, transportes, vale-alimentação, etc. Porém, é uma prática que exige maturidade para ser implantada, principalmente por parte de gestores, a cada dia mais imaturos. 

Mas, de verdade, só iremos mudar essa molecagem – isso mesmo, molecagem – que anda sendo feita com todos nós, profissionais que nos empenhamos em apresentar um trabalho digno e sem pirotecnias, quando pararmos de aceitar tais benefícios sob a simplória justificativa do empregador de que “a fila anda”.

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A fila anda, sim. Então, que contratem o primeiro teenager de proveta criado em faculdade caça-níquel que, provavelmente, nunca ouviu falar em conceitos simples como ética, justiça e honestidade. Todos conceitos simples, mas que hoje andam totalmente usurpados pela mídia e por governantes sem legitimidade.

As (piores) empresas não fariam diferente.

E você? Também conhece casos tristes ou engraçados de vagas de emprego que gostaria de compartilhar com a gente? Compartilhe aí nos comentários e nos ajude a consolidar material para um próximo post!