Tenho presenciado um fenômeno que pode ser comprovado ao se analisar o gráfico de abertura de empresas no Brasil. Após 2014, podemos notar que o número simplesmente despencou. O de fechamento teve um aumento considerável no ano citado e se manteve.

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Neste texto vamos falar sobre este fenômeno pouco celebrado, pouco comentado e muitas vezes traumático: o momento de não empreender.

Não dar o próximo passo

Muito se fala dos passos que se deram e obtiveram sucesso. Porém precisamos muito valorizar o oposto. Muitas e muitas ideias fracassam pois era necessário mais pesquisa, mais acerto na Proposta de Valor, mais testes de mercado. Muitos empreendedores que conheço deram esse passo pois empreendiam por necessidade. Era empreender ou empreender, não encontraram outro caminho. Este é o paradigma número 1 a quebrar: SEMPRE há um outro caminho.

Alexander Lam @ Unsplash

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Empreendedores impacientes

Tenho criticado muito a questão de simulacro nas vendas e reafirmo que cumpro o papel de advogado do diabo no Marketing Digital com gosto, pois presenciei várias e várias pessoas que se perderam em turbilhão de armadilhas. Algumas delas não me ouviram, outras ignoraram e todas tentaram reinventar a roda, ignorando mestres que podem pavimentar os nossos caminhos, quando nos colocamos como aprendizes pacientes.

É um posicionamento que às vezes me faz perder um cliente imediato em potencial. Não me importo, porque sei que meu propósito maior é educar o mercado com o pouco que sei. Tornar o mercado mais profissional e ter empreendedores que, se pacientes, nunca mais terão de recomeçar.

Tomar impulso para subir sem descer

Abaixo, listo três degraus que considero fundamentais a se considerar antes de dar o passo, aquele momento em que ficamos no mesmo lugar. Inércia? De jeito nenhum: consciência do que vem à frente!

#1 – Conscientização de papeis a cumprir

rawpixel.com @ Unsplash

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Quando começamos um negócio acumulamos tantas funções que muitas vezes é necessário ignorar algumas. Quando decidi empreender e tirar meu projeto do papel tive que ter consciência e fé em mim mesmo que eu tenha o conhecimento de 12 profissionais (ao menos de forma superficial, em alguns) que seriam necessários na empreitada:

  • Administrador
  • Gestor de Tecnologia
  • Gestor de Design
  • Gestor de Inbound Marketing
  • Designer
  • Produtor Gráfico
  • Desenvolvedor Web
  • Redator
  • Analista de Marketing
  • Cervejeiro artesanal
  • Expedidor de pedidos
  • Qualidade/Pós venda

Domino como um mestre todas essas áreas? Nem de longe. Porém antes de tirar o projeto do papel eu analisei o negócio e percebi a necessidade de atuação de todos eles. Inseri as atuações em um cronograma, que, claro, já foi alterado diversas vezes.

#2 – Ignorar é acumular cansaço

Xavier Sotomayor @ Unsplash

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Se você empreendedor, tentar começar um negócio e deixar de lado ou ignorar alguma das funções primordiais que o negócio precisa desde o princípio, seu destino é certo: stress, vulnerabilidade à ameaças e correlatos. Não faça isso com você. Terei de exercer todas aquelas funções listadas acima todo o tempo? Não. Coordenando com inteligência, consigo distribuir ao longo dos meses do cronograma e cumprir o que tem de ser feito.

Além dos papeis do negócio propriamente dito (e que você deve conhecer bastante) ainda há os papeis de Gestão (com G maiúsculo) que são igualmente pesados e precisam de cuidados diários. Seja na etapa anterior ou posterior à abertura do seu negócio, lembre que haverá necessariamente uma rotina de burocracia que o Brasil notadamente herdou dos irmãos patrícios.

#3 – Engajamento como solução

Photo by rawpixel.com on Unsplash

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Um fator importantíssimo para se seguir com projetos é considerar quem pode estar ao seu lado. Nem sempre um irmão ou um amigo de longa data é a melhor escolha exatamente por conflitos nos papeis citados acima. É fundamental que você tenha parceiros de verdade e que vocês qualifiquem de alguma maneira o que cada um espera um do outro. Como dizia uma antiga colega: água de coco de coqueiro. Fale o que parece óbvio, mas fale.

Alguns projetos são tocados por voluntários. O Solcial, por exemplo, ONG de BH, permite que pessoas voluntariem-se em uma causa nobre, obtêm envolvimento, agentes comprometidos que não geram qualquer carga tributária ou custo. Em outros você pode identificar um colaborador para determinada função imprescindível que você não poderá realizar e combinar uma porcentagem, um salário, uma relação clara de tarefa a cumprir e recompensa determinada.

As últimas mudanças de terceirização que o governo de Temer efetuou podem ser usadas de forma benéfica neste caso. Veja suas opções, mas há um segredo que muda tudo na relação profissional. Leia o próximo parágrafo com extrema atenção e reflita sobre depois.

A premissa básica sempre é valorizar o trabalho das pessoas, especialmente daqueles que ouvem as nuances do seu projeto e já se empolgam com a ideia. Aquele parceiro na implementação do MVP poderá tornar-se um dos gestores de algum departamento da empresa no futuro. Alinhem expectativas de forma madura e mãos à obra.

O caso especial do E-commerce

Me dá uma enorme preocupação quando percebo que a pessoa que me procura não tem ideia de como é complexo abrir um e-commerce. E isto vem se repetindo sistematicamente. Em parte isso é causado pelo enorme número de soluções e negócios voltados para incentivá-lo a ter um negócio virtual e como eles vendem uma facilidade que não existe.

A outra causa, realmente, é a falta de cultura empreendedora do Brasil, histórica, que nos mantém longe da complexidade deste universo. Se preocupa em excesso com a ferramenta em detrimento às dores do cliente, o cerne da Proposta de Valor dos negócios.

Percebi, de forma geral, 2 tipos de comportamentos que às vezes se transformavam de um para o outro, misturam, vem e voltam de acordo com a necessidade e empolgação do dono do negócio:

Curiosidade de peito aberto

Photo by Ian Schneider on Unsplash

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O empreendedor com este olhar se mostra cauteloso, tem consciência que há muito o que aprender e não dá passos sem estar consciente de ao menos parte das consequências. Costuma se encantar com ofertas e possibilidades, mas busca freneticamente parceiros e referências para validar se sua ideia não se sustenta ou se é oportunidade real para longos anos de atividade.

Tem experiências maduras ao conduzir ou participar de administração de negócios, ao menos com alguns dos papeis definidos, setorizados, mas com consciência de futuros agentes fundamentais e suas funções. Gosto deste empreendedor porque ele é ávido por ouvir. Vai em palestras e vê inclusive vídeos que lhe pareçam trazer o óbvio. Dialoga. Sabe delinear seu projeto, o que pretende vender e como pretende atender os clientes.

Esperam poder contar com outras pessoas que têm outros conhecimentos que ele não tem – e talvez não queira ter – e serão fundamentais – ou muito importantes – para que a empreitada tenha sucesso.

Personalismo excessivo

Photo by Radek Grzybowski on Unsplash

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Se você se identificar com esse comportamento, saiba que nunca é tarde para respirar, frear as ações, validar cada etapa que já foi implementada e dar novo rumo às suas demandas. E não há um comportamento “correto” no mundo do Empreendedorismo, ok? Este comportamento me traz mais preocupação porque não costuma haver muito diálogo: o que dizemos não é levado a sério ou ignorado ou, ainda, tomado como injúria.

Às vezes considero que não se habilita o consultor como agente qualificado para intervir; há resistência por pura vaidade ou só se aceitam argumentos que sejam confortáveis de ouvir. Além da dificuldade de ouvir o que temos a dizer, costumam realizar muitas das ações que avisamos antes que seriam ameaças se realizadas sem coordenação e critério.

Não costumam aceitar planos que não venham de suas mentes e preferem imitar um status quo que se considera “sucesso certo” ou que “está ganhando muito dinheiro”, geralmente momentâneo ou que não era bem daquele jeito…

Supervalorizam figurões, deixando de olhar referências de mercado com olhar crítico, fazer seu próprio filtro e se colocar em papel de aprendiz para simplesmente… aprender. Mais uma vez, mantêm foco excessivo no canal de vendas em detrimento à como solucionar as dores dos clientes ou benefícios que trarão para os mesmos, de forma detalhada, minúcias da proposta de valor.

Qual deles é você?

Bem, meu caro, a resposta é que não é possível se encaixar completamente em nenhum dos dois comportamentos acima todo o tempo. O empreendedor personalista demais geralmente é obrigado a mudar. O equilíbrio é a melhor escolha. Inclusive para, aqui está a joia deste texto, saber a hora de ser o advogado do diabo do projeto e, se necessário, conscientizar todos os envolvidos. Valorize o passo não dado. Pois pode ser que futuramente essa pausa seja exatamente o que vai proporcionar passos em um caminho mais seguro.

Tem algum desses passos não dados que você gostaria de compartilhar conosco? Digaí!