Assisti muitas vezes a um desenho animado que mostrava uma “típica” família do século XXI que residia em um arranha-céu futurista e tinha à sua disposição robôs e aparelhos high tech que tornavam suas vidas mais fáceis e tecnológicas. Falo de “Os Jetsons”, série produzida pela Hannah-Barbera e que, de acordo com a Wikipedia, foi exibida pela primeira vez de 1962 a 1963 e depois com uma nova versão entre 1985 e 1987. Na série, mesmo que tudo parecesse muito óbvio: naves que enchiam o espaço aéreo das cidades suspensas, trabalho automatizado, esteiras rolantes que facilitavam o deslocamento, aparelhos de tele-transporte e robôs que realizavam todos os desejos de seus proprietários, a revolução comunicativa que assistimos atualmente, com a internet e o seu acesso via múltiplos devices, não foi sequer imaginada.

 

 

O fato é que o aparecimento da internet provocou impactos substanciais nos diversos setores da vida de qualquer indivíduo urbano do século XXI, e o mais significativo: contribuiu enormemente para a nossa transformação em seres multi-telas. Isso mesmo: não apenas criaturas multitask que fazem muitas coisas simultaneamente, ou indivíduos “intoxicados tecnologicamente” (para usar a constatação de John Naisbitt, Nana Naisbitt e Douglas Philips no livro High Tech / High Touch), ou ainda em pessoas que instituíram novas formas de comunicação por conta da inexistência de barreiras geográficas e/ou distâncias reais capazes de impedir o processo comunicacional, mas seres multi-telas! Hoje, por exemplo, enquanto escrevo este post, estou morando fora do país, mas nunca me senti tão próxima, em termos comunicacionais, das pessoas do Brasil – fico conectada e falo com elas 24 horas por dia através de 3 telas diferentes: meu laptop, meu tablet e meu celular.

 

 

Claro que eu sei que a vida cotidiana em um mundo totalmente tecnológico, conectado, ligado e interligado em rede, tem as distâncias “encurtadas” nos fazendo perceber de forma diferente o “próximo” e o “longínquo”. Essa lógica, como amplamente propagada por diversos estudiosos da atualidade, remodela a noção de tempo e espaço, se materializando por meio dos novos modos de se “estar junto” e pela percepção espacial das experiências do fluxo, do instantâneo, do simultâneo.  E é justamente aqui que se materializa a nossa transformação em seres multi-telas, já que estar em frente a uma tela, seja qual for ela (celular, tablet, PC, laptop, televisão ou GPS) é um acontecimento que ocorre de forma cotidiana e repetida no nosso dia – desde que acordamos até a hora em que vamos dormir (inclusive, muitos têm o sono velado ou “embalado” por uma tela de TV). O fato é que interagimos rotineiramente com muitas telas e já não conseguimos mais imaginar como seria a vida sem elas.

 

 

Você deve agora estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com o marketing digital? E eu respondo: absolutamente tudo. A vida multi-tela dos consumidores reconfigura, desconstrói e reconstrói as noções anteriores dos conceitos relacionados à comunicação e ao consumo em si. As relações de consumo deixaram de ser estabelecidas única e exclusivamente no campo do “concreto” para serem constituídas também na virtualidade. O mundo ofertado e acessado pelas telas que nos cercam amplia a extensão dos nossos corpos e das nossas mentes, dialoga com os nossos bolsos e viabiliza, remotamente, as nossas escolhas e aquisições.  Pesquisamos endereços, preços e comentários sobre marcas, produtos e serviços no lugar onde estejamos e em qualquer hora do dia, postamos e partilhamos nossas experiências de consumo na hora em que estas são vividas, realizamos compras e pagamentos com o auxílio das telas que operamos repetidamente e que colocam diante de nós mais informações do que conseguimos realmente assimilar…