Na Grécia antiga, berço da civilização ocidental, o destino de cada cidade-estado (polis) era discutido na ágora. Nesse espaço público, os cidadãos deliberavam sobre o futuro da polis em meio a discussões muitas das vezes acaloradas e que selavam o destino de toda coletividade, quer seja por intermédio de declaração de guerra contra outra polis, quer seja condenando determinado cidadão ao ostracismo, por exemplo. Este modelo, apesar de excluir as mulheres e os escravos, não tinha paralelo nas civilizações contemporâneas à grega de então, tal como a persa e a egípcia, tendo servido de inspiração para o que hoje conhecemos por democracia.

 

 

A virtualização da ágora

 

Transpondo-nos para o Brasil do século XXI, o exercício da cidadania incorporou a dimensão viabilizada pela revolução digital, ou seja, a ágora, antes um espaço físico, foi virtualizado e ampliou-se graças à conectividade advinda a partir da Internet.  Um exemplo cabal deste fenômeno em grande escala pode ser observado nas manifestações ocorridas no Brasil em 2013 – sua convocação deu-se por intermédio das redes sociais.

 

Já que o espaço da cidadania ampliou-se, tornando-se também virtual, talvez seja lícito pensarmos mais detidamente sobre como os recursos públicos destinados à tecnologia da informação são aplicados. Afinal de contas, além do provimento de saúde, educação e segurança pública, nossos governantes devem também se ocupar desta dimensão advinda da revolução digital, pois suas repercussões incidem crescentemente sobre o exercício da cidadania.

 

 

O quanto gastamos com tecnologia da informação no Brasil

 

Neste tom, temos que no ano de 2014, segundo o Portal da Transparência do Governo Federal, foram gastos R$ 4.705.761.479,08 (quatro bilhões,  setecentos e cinco milhões, setecentos e sessenta e um mil, quatrocentos e setenta e nove reais e oito centavos)  com pagamentos em tecnologia da informação. Em outras palavras, isto representa o montante pago a empresas que forneceram itens de tecnologia da informação ao Governo Federal no ano de 2014. Não estamos falando das outras esferas de poder – estadual e municipal. Muito menos do Poder Judiciário e do Poder Legislativo. Estamos falando da administração direta, autárquica e fundacional vinculada ao Governo Federal.

 

Ok, mas o que isso tem a ver com Marketing Digital?

 

Vamos começar pela Metodologia 8Ps do Marketing Digital.

 

Segundo Conrado Adolpho, a Metodologia 8Ps pode ser resumida pela figura a seguir:

 

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Método 8 Ps

 

 

Resumidamente, a metodologia 8 Ps contempla uma série de procedimentos que uma empresa deve seguir para obter o sucesso na sua estratégia digital, incluindo o planejamento de todos os passos a realizar na Internet para que esta seja efetivamente uma plataforma de negócios. A metodologia busca criar um processo cíclico que se renova a cada período na busca de resultados cada vez melhores. Por esta razão, a estratégia dos 8Ps é um processo que começa no consumidor e termina no consumidor.

 

A proposta deste artigo é induzir uma reflexão sobre os conceitos que instruem a estratégia dos 8Ps, trazendo este conceito de marketing digital para o campo da cidadania, à luz das necessidades que afligem boa parte dos brasileiros.

 

Neste contexto, podemos imaginar o que seria se o Governo Federal começasse a utilizar o Metodologia 8 Ps. Não é um exercício muito difícil – troca-se consumidor por cidadão, empresa por governo e negócio por serviços aos cidadãos.

 

É bem verdade que o tema composto pela união de cidadania e tecnologia da informação já é abordado no âmbito daquilo que se convencionou chamar de Governo Eletrônico.

 

Mas, repito, aqui trata-se apenas de um exercício de reflexão alavancado, sobretudo, por este momento de cidadania bombardeada por notícias massivamente negativas a respeito do uso dos recursos públicos em nosso país.

 

Voltando. Temos os gastos com tecnologia da informação que viabilizam as políticas públicas dos órgãos integrantes do Governo Federal (R$ 4.705.761.479,08). O efeito desejado é que cada um dos cidadãos abrangidos por essas políticas, assim como a sociedade em seu todo, percebam o retorno deste investimento realizado com o dinheiro dos contribuintes em termos de melhorias em suas vidas.

 

É bem verdade que já existe um esforço no sentido de alinhar os objetivos de TI do Governo Federal às ações governamentais, cujo órgão com atribuição central é o Ministério do Planejamento por intermédio do Sistema de Administração dos Recursos de Tecnologia da Informação (SISP). Este esforço se desdobra em várias dimensões, dentre elas o Programa de Governo Eletrônico brasileiro. Sua pretensão é a transformação das relações do Governo com os cidadãos, empresas e também entre os órgãos do próprio governo de forma a aprimorar a qualidade dos serviços prestados, promover a interação com empresas e indústrias, bem como fortalecer a participação cidadã por meio do acesso a informação e a uma administração mais eficiente.

 

Até que ponto este esforço é sentido pelos cidadãos?

 

Numa ponta da análise para resposta desta pergunta temos o Governo Federal e sua aplicação de recursos. Na outra, a população brasileira, a qual, segundo os dados consolidados mais recentes do IBGE, acessa a Internet conforme demonstrado pelo gráfico a seguir.

 

grafico-internet

Acesso da população brasileira à internet

 

A leitura do gráfico nos permite concluir preliminarmente que a ágora brasileira é composta pelos espaços públicos disponíveis nos mas de 5.000 municípios brasileiros acrescidos ao espaço virtual a que, potencialmente, mais da metade da população brasileira terá acesso. É um potencial de capilaridade bastante significativo, suficiente para descobrir muitas das “dores” do avatar cidadão.

 

Voltando ao marketing digital e começando pelo comportamento online dos cidadãos, eis algumas das situações que gerariam boa parte das “dores” do avatar cidadão:

 

  • Pessoas se postam desde a madrugada em filas na busca de matrícula para seus filhos nas escolas públicas. Em alguns estados, esta inscrição é efetuada pela Internet, mas parece que o processo não consegue ser confiável a ponto de eliminar as filas.
  • A busca por vagas em creches mantidas pelo poder público também obriga muitos pais a se postarem em filas, muitas das vezes em detrimento do cumprimento do horário de trabalho. Analogamente à questão das escolas, parece que o processo por intermédio da Internet não é confiável.
  • A angústia da saúde pública poderia ser minorada para a parcela que dela precisa e está incluída no contingente de brasileiros com acesso à Internet, desde que houvesse um sistema via Internet confiável a ponto de realizar marcações de consultas por intermédio da rede mundial.

 

Essas são apenas poucas das muitas situações que poderiam ser vislumbradas nesse contexto. Esta lista pode ir muito longe.

 

É verdade que teríamos que abstrair alguns pontos em termos de atribuições estabelecidas pela Constituição Federal naquilo que se refere a saúde e educação, pois estamos nos referindo ao nível federal da Administração Pública, mas lembre-se, trata-se de um exercício de reflexão. Se este exercício virasse realidade, determinadas limitações em termos de atribuições seriam facilmente transpostas. O que importa é a realidade da “dor” que nosso cidadão sofre. Esta não tem que seguir o estabelecido na Constituição Federal.

 

A Dilma Sapies e o Método 8PS

 

O Governo Federal, aqui consubstanciado por intermédio da alcunha recentemente atribuída à nossa mandatária, poderia realmente ser qualificado de sapiens ao aplicar a metodologia 8Ps às situações exemplificadas anteriormente. Vamos tentar?

 

  • 1 P – Pesquisa. Coleta de informações sobre como direcionar os esforços com base no entendimento daquilo que os cidadãos mais desejariam ter online por parte do governo.
  • 2 P – Planejamento. Com base naquilo coletado no item anterior, conceber conceitos de portais voltados às necessidades do conjunto da sociedade.
  • 3 P – Produção – Planejar a estrutura desses portais calcada na obtenção das funcionalidades que atendam às necessidades identificadas no item anterior.
  • 4 P – Publicação – Selecionar os conteúdos que melhor coadunem as necessidades e funcionalidades identificadas no item anterior.
  • 5 P – Promoção – Tornar os conteúdos definidos no item anterior relevantes para o cidadão, por intermédio da utilização de linguagem adequada e que “converse” com a realidade da maioria.
  • 6 P – Provocar o compartilhamento do conteúdo, divulgando sua utilidade em outros canais.
  • 7 P – Personalização – refinar a definição do avatar para cada um dos serviços providos pelos portais, de modo a segmentar a comunicação e criar condições propícias ao estabelecimento de relacionamentos.
  • 8 P – Precisão – mensurar os resultados e alterar as estratégias de acordo com os mesmos.

 

No nosso exercício, haveria a necessidade de se incluir o 9 P – Permanência, aqui entendida como a adoção de medidas que tornem as práticas preconizadas pelo método 8 Ps permanentes, independentemente da coloração partidária do governo. Em outras palavras, seria tornar esta iniciativa uma ação de Estado e não de Governo.

 

A aplicação do nosso recém-inventado método 8Ps+1 de modo cíclico, conforme preconizado pela metodologia, certamente traria resultados mais sapiens a discursos e ações governamentais. No contexto do nosso exercício de abstração, os resultados obtidos a partir da aplicação da metodologia, se levados a efeito, poderiam rechear os discursos e o dia-a-dia do conjunto da sociedade brasileira, fazendo com que a aplicação de recursos em ações de tecnologia da informação fosse sentida de modo efetivo na medida em que as “dores” do nosso avatar cidadão fossem minoradas. Aí então todos concordaríamos que temos uma Dilma Sapiens, um Governo Sapiens, de verdade.

 

Depois deste exercício de reflexão, qual a sua opinião sobre o potencial do Método 8 Ps? Será que ele seria mesmo capaz de trazer uma agenda “positiva” ao contexto político do Brasil atual?