No último artigo da série falamos sobre a peça fundamental: você. Agora, consequentemente, vem uma questão igualmente crítica para os empreendimentos e novas ideias que começam a ser colocadas em prática: a Gestão.

Gestão

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Gestão com G maiúsculo. A grande disciplina de Gestão, subdividida em vários pontos, complexa, crucial. Isso todo mundo sabe, não é?

Então, por que temos uma crise de Gestão tão enraizada, tão frequente, tão gritante no Brasil? Sugiro uma pesquisa no Google: “o problema de gestão no Brasil”. Você perceberá uma concentração em questões públicas. Por que não se fala na crise de Gestão do meio privado?

Nós do Digaí queremos dar uma grande sacudida em você, futuro empreendedor! A Gestão é o grande pronto que tratamos dentro da chave entregue a vocês no primeiro artigo da série:

Chave #2: os papéis das pessoas

Que tal observar um fato histórico de um país que sempre esteve no topo da economia? Sempre foi modelo de gestão para todo o mundo. Pois essa potência econômica mundial já se encontrou em cenário semelhante ao atual, brasileiro.

A crise do petróleo dos anos 70 assolou a América do Norte com recessão, desemprego, grandes indústrias com políticas de demissão em massa. Como no Brasil, encontrar uma solução para tamanho desemprego e retomada da economia se tornou urgente!

E qual foi a solução, segundo Peter Drucker, que alavancou o país para um crescimento sem precedentes? Qual foi a nova tecnologia implementada? Foi o fenômeno dos computadores? Não. Para resumir, a nova tecnologia que foi disseminada e aplicada com profundidade em praticamente todas as organizações se chamava Administração em níveis de excelência.

Gestão Eficiente

Há nos EUA um formato de investimento muito comum que se chama Venture Capital. É o que por aqui chamamos de investidor anjo. É corriqueiro que o investidor anjo mantenha os olhos sobre a organização que ele investiu e mais: que ele guie seu “protegido” num caminho de Gestão consagrado.

Se startup, será o chamado método Lean Startup, em que você deve tornar sua organização ágil em ter as coisas feitas, realizar o proposto da ideia e repetir, em uma escalada de volume lucrativa e eficiente.

Nos anos 80 e 90 tivemos um “milagre” econômico com empresas de pequeno porte se tornando corporações competitivas em todos os setores. Essas mesmas empresas acabaram por absorver os milhões de trabalhadores que saíam das gigantes.

Os papeis de cada um na Gestão

Nós sabemos que o Brasil não tem uma cultura de empreendedorismo, temos plena consciência de como trilhar um caminho seguro é difícil. Não pretendemos sustentar qualquer discurso utópico, mas o exemplo norte-americano traz uma mensagem contundente para o planeta: profissionalizar a administração deveria ser compulsório.

Como entregar numa proto-organização finanças a um financista, marketing a um marqueteiro, gestão de pessoas a um gestor qualificado? Impossível. Mas é possível programar, enxergando o que cada criador da empresa consegue acumular no início.

Lembra-se que comentamos no último artigo “o que você faz muito bem?” e “qual seria o seu papel na organização?” significará a entrega do posto quando isso for necessário. Não interfira em departamentos desconhecidos quando eles pedirem complexidade!

Para tornar este texto mais leve, o autor transcreve a visão de um Consultor e Professor, mestre em Finanças e que já trabalhou a viabilidade financeira de centenas de projetos no meio empresarial, público e acadêmico do Brasil – Ildeumar Dias – sobre esse assunto, em um bate-papo agradável e descontraído.

Colunista Digaí: Uma das coisas que me chamaram a atenção ao frequentar ambientes de empreendedorismo como o MES de BH foi a quantidade de ideias de impacto social, sustentabilidade, negócios revolucionários, ideias que ganharão muito dinheiro, etc.

Gostaria que você falasse um pouco da sua percepção em sala de aula, entre projetos e ideias de alunos, parceiros, amigos, clientes que contratam você para avaliar projeções financeiras, especialmente sobre o universo dessas pessoas que tiveram uma grande ideia e começam a dar os primeiros passos, o que mais lhe chama a atenção, especialmente aqui no Brasil?

Professor Ildeumar: As opiniões e os focos de entendimento variam ao infinito, mas toda reflexão crítica sobre empreendedorismo envolve uma definição em torno da extensão do hiato entre, de um lado, o Brasil tal como ele existe e, de outro, o Brasil como ele poderia e deveria ser: um imenso fosso entre o real e o ideal.

Acrescentaria outro ponto interessante: o grau de poder e de competência do qual se dispõe a fim de transformar a realidade das ideias na direção desejada: o eixo se alonga do voluntarismo extremado, no qual tudo é questão de vontade, ao absoluto fatalismo de que as coisas são como são e não há nada que se possa efetivamente fazer para mudá-las.

O Brasileiro é um povo ousado e se reinventa diariamente com muita facilidade. Em épocas de “crise”, que chamo de OPORTUNIDADES, cresce esse desejo e esse afã se torna muito forte tanto para as pessoas (físicas ou jurídicas) já estabelecidas que me procuram para orientá-los na busca por melhorias, novos caminhos etc. (o que fazer e como fazer?), bem como quem já está no mercado que busca soluções/maneiras/caminhos DIFERENTES para aumentarem os seus ganhos e/ou diminuírem o seu prejuízo (O que nos resta fazer?).

Nós profissionais de consultoria de gestão, como é o nosso caso, temos o “culto” aos resultados econômicos financeiros como métrica de sucesso das empresas. Tornou-se uma espécie de religião do nosso tempo. O crescimento é a meta suprema em nome da qual essa “divindade” procura identificar soluções e espaços para o preenchimento desse vazio da existência na esfera das empresas, principalmente das privadas (micro e pequenas empresas).

Esse profissional tem que ter conhecimento, habilidade, pró-atividade e, acima de tudo, muita ética.

Colunista Digaí: Penso que temos uma crise de gestão no Brasil, em que há uma massa gigantesca de negócios geridos de forma amadora, muito longe dos mínimos ideais que foram implementados em larga escala nos EUA do final dos anos 70. O que você diria sobre isso ao empreendedor que tem apenas uma grande ideia?

Professor Ildeumar: Um homem não sente dificuldade em caminhar por uma tábua estreita enquanto acredita que ela está apoiada do solo; mas ele vacila – e afinal despenca – ao se dar conta de que a tábua está suspensa sobre um abismo. – Se é verdade que a percepção não é o fato – a tábua esteve sempre onde está – , isso em nada diminui a importância – e eventual primazia – do fato da percepção.

Esta é a situação do nosso país. Após mais de três décadas de inflação, o Brasil subitamente passou a integrar o rol de países estáveis do primeiro mundo. Junta-se a essa mudança radical o fim do paternalismo de Estado e empresarial, e estamos diante de uma sociedade estupefata e desorientada com mudanças tão radicais.

Quando você empreende, você busca um resultado financeiro satisfatório. Diria ao empreendedor dono de uma “grande ideia”: faça um bom estudo sobre a viabilidade de implantação deste negócio; estude bem os seus concorrentes; creia no sucesso; busque uma boa orientação; foco no negócio; profissionalize-se;

Colunista Digaí: Ao empreender, nos deparamos com a necessidade de tratar de assuntos fora do nosso alcance profissional. Notei uma dificuldade do empreendedor em confiar em profissionais para ajudar. Vi muitas vezes empreendedores passarem por um caminho de aprendizado desgastante que poderia ser evitado se feito com alguém da área.

A experimentação é saudável, mas você acha que isso poderia ser diferente? Como o empreendedor deve lidar com isso?

Professor Ildeumar: Em outras épocas eram as feras, os relâmpagos, os sonhos medonhos e a ira dos deuses que assombravam o espírito dos homens; agora, em contraste, é o medo do latrocínio, da quebradeira financeira, dos distúrbios mentais e do colapso ambiental que nos acossa. O empreendedor deve lidar com essa questão de forma tranquila, acreditando na ideia, no sucesso e, fundamentalmente, no profissional escolhido para ser seu mentor/parceiro. Se não gostar, troque!

Colunista Digaí: Tenho visto muito frequentemente que empreendedores novatos fixam foco excessivo em ver um produto ou serviço pronto para comercializar, ignorando etapas conceituais como a Proposta de Valor simplesmente fundamentais para o sucesso do projeto. O que podemos falar sobre isso para os novatos que certamente vão nos ler?

Professor Ildeumar: Toda verdade é emocional! Ou melhor, a verdade pode te trair! Daí a necessidade de se profissionalizar e de escolher bons profissionais para auxiliá-lo. Não dá para colocar em risco uma ideia, um sonho! O planejamento é fundamental! Se você pular etapas, certamente terá de  retornar para ajustes básicos! Prudência, saber ouvir, bons assessores (consultores) seriam bons remédios para esses empreendedores mais ligeiros.

Colunista Digaí: Gostaria de ouvir um panorama ainda que superficial, porque o assunto é super complexo, mas ponto crucial no empreendedorismo: dinheiro. O que você pode falar para aquele empreendedor que tem uma grana guardada e pretende aplicar, outro que está saindo do zero e outros que pretendem usar verbas do governo?

Professor Ildeumar: Estabelecer e seguir uma estratégia precisa, deliberada e dirigida! Nenhuma empresa pode progredir a longo prazo se não tiver um foco ou objetivo. Também o indivíduo precisa saber antecipadamente as metas que pretende atingir. Isso não significa que, depois de definidas, as metas não sofram alterações. Faz parte do planejamento realizar revisões periódicas – de preferência, pelo menos uma vez por ano, de modo a confirmar se certos investimentos e gastos são realmente necessários ou se deveriam ser eliminados, assim como para se redefinir objetivos de curto, médio e longo prazos.

O Estado paternalista está deixando de existir no Brasil e no resto do  mundo. Basta observarmos os noticiários da TV e dos jornais para concluir que o governo não pode sustentar sozinho 200 milhões de brasileiros com um padrão de vida razoável. Diante disso, o dinheiro do governo está cada vez mais escasso e direcionado para empreendedores que detêm projetos bem elaborados, fundamentados e factíveis, principalmente na esfera social. Não é fácil, atualmente, buscar recursos no governo; mas, não é impossível! Como eu disse: tem que se ter organização, planejamento e um bom e viável projeto.

Colunista Digaí: Pra finalizar, quem estará lendo essa entrevista será um empreendedor que já está ganhando pontos correndo atrás de informação, certamente estudando e procurando abrir portas para a sua ideia. Eu mesmo tenho a sensação de que vou ser um eterno novato no assunto. Você pode falar sobre a importância de manter esse olhar de aprendiz, sobre o mundo de conhecimento que se renova constantemente e como lidar com esse volume de informação?

Professor Ildeumar: Tenho em Sócrates grandes devaneios filosóficos e sou um grande admirador desse eterno mestre!  “Eu sei que nada sei”! Somente consciente e aberto ao novo é que podemos aprender. Isso, certamente, é o grande desafio que impulsiona os eternos aprendizes guerreiros: a humildade. Dentro dessa humildade, seremos capazes de, quem sabe, entender o porquê de um para-brisa ser mais caro que um pneu? Ou, o porquê do vinho que tomo agora ser mais caro que um litro de leite… (Risos)

Não há verdade absoluta

Ainda mais nos empreendimentos. Você, meu caro empreendedor, é a locomotiva do seu negócio. Honre a sua grande ideia com ações planejadas, converse com profissionais de cada área e tome atitudes! Invista seu tempo, confie, mude de opinião, desfaça laços, arrisque!

Descubra o seu papel na Gestão e tome posse da ideia de que seu projeto não é você: é um meio para você criar uma ponte de valor entre o seu objeto desejado e o público-alvo. Sua organização precisará dos melhores nos vários papéis, mesmo que seja necessário acumular no início.

Como isso pode ser feito? O que você já teve que sacrificar? Nos conte nos comentários e até o próximo conteúdo!

Fontes de conhecimento:

Professor e Consultor Ildeumar Dias

Administrador de Empresas, Consultor financeiro e Professor universitário com sólida e bem sucedida experiência no campo dos negócios, instituições financeiras, educação e mineração, em empresas nacionais e internacionais de grande e médio porte, instituições de ensino superior e governo, sendo as principais: Banco do Estado de Minas Gerais S/A, Banco Itaú S/A, Austin Asis Consulting, Johnson & Johnson, Centro Universitário Newton Paiva, Faculdade de Medicina Ciências Médicas (ensino a distância), FAMINAS – Faculdade de Minas e Ministério de Minas e Energia.

Livros e sites

Inovação e Espírito Empreendedor – Peter F. Drucker

Força Tarefa Finanças Sociais (sobre projetos e impacto)

O Ecossistema Empreendedor Brasileiro de Startups – Arruda, Cozzi, Nogueira e Costa

Blog Educação Executiva de Berkeley (artigos sobre Lean Startup)