“Você quer que eu dê a mão?”

 

Era um hábito desde a época da faculdade. Me lembro quando a aula durava até 22:40h, mas tinha que sair mais cedo para ele não perder o ônibus, o último da noite. Subíamos a rampa com os pés apressados e a bengala na mão dele, ficava como um radar supersônico indicando os buracos da rampa, porque eu, como desatento que sou, não observava todos.

 

Colocava ele dentro do ônibus e pedia ao cobrador para deixá-lo na praça central da cidade, porque ele pegaria o próximo ônibus para ir a sua casa, cerca de oito km do centro universitário. “Obrigado, Rafael. Não esquece de me enviar a gravação, tá?”, me alertava para enviar as falas dos professores por e-mail para ele estudar.

 

Antônio Marcos da Costa, hoje, é presidente da Associação Juiz-Forana de Para-Desporto (AJP), onde coordena jogadores de Futebol de Cinco e Goalball aqui em Juiz de Fora, além de programar amistosos e copas por Minas Gerais e outros estados. Os atletas moram também na cidade, mas contribuem para ajudar times em outros locais, assim como Antônio, que hoje coordena remotamente a instituição.

12248208_1147929711903429_7422961941610900250_oAtletas da AJP José Maria, Felipe Jefferson, Antônio Marcos e Wallace, além da treinadora de equipe comemorando a vitória do campeonato em Jequié, na Bahia.

Na tela do computador ou celular

 

Fui convidado para ajudar na área de comunicação da AJP logo no começo, onde tinha o objetivo de divulgar os jogos, ajudar com permutas e organizar os eventos. Ao longo do trabalho, conseguimos mídia, patrocinadores e jogos, inclusive uma copa com times do Espírito Santo e São Paulo. Mas, para acertar o trabalho, foi preciso muito esforço.

 

“As mídias sociais que eu mais utilizo são o Facebook WhatsApp, por serem as duas mais acessíveis pra mim”, afirma Antônio. Ele explica o utilidade das duas plataformas para a sua rotina. “Devido à possibilidade do envio e recebimento de áudio e também os textos. Eu tenho no meu celular um pacote chamado “Smart Voice”, que me permite verificar a leitura dos emoticons, legendas e os caracteres. O WhatsApp principalmente é o mais acessível para deficientes visuais, entretanto, no meu caso, quando eu tenho várias conversas para serem lidas, eu fico um pouco perdido, porque não consigo clicar em cima dos áudios e textos. Eu tenho que ficar apertando o dedo para esquerda e direita, e vice-versa para encontrar os dados. Por isso, é muito melhor utilizar o desktop do que celular,  nós não usamos o mouse, apenas as setas para nos orientar”, explica.

 

No último censo divulgado pelo Governo Federal no ano passado, o país tinha  6,5 milhões de pessoas com deficiência visual. Mundialmente, o número passa de 39 milhões, publicado pela Organização Mundial da Saúde em 2013.

 

Mudanças

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Antônio Marcos concedendo entrevista para TV Integração, afiliada Rede Globo.

A Live Tim em parceria com o Instituto Benjamin Constant decidiu criar o Emoti Sounds, projeto que permite que deficientes visuais escutem  a ação dos emoticons publicados nas mídias sociais. Acompanhe o trabalho:

O Facebook saiu na frente para melhorar a usabilidade da mídia social para cegos, utilizando um sistema que descreve por meio de palavras-chave o que contém numa foto postada. “Eu utilizo esse serviço, então, por exemplo, uma foto com uma área interna com cinco pessoas sentada numa mesa de café da manhã. Eu consigo entender o que está na foto, principalmente se fui marcada nela”, complementa Antônio Marcos.

 

“A minha maior dificuldade é com as imagens que as pessoas postam em outros sites e mídias sociais e não tem como acompanhar, não tem nenhum dispositivo, um app que poderia descrever fotos, emoticons e vídeos. O maior problema é a falta de descrição que deixa a gente perdido”, reitera. E o problema pode aumentar com a falta de hábito, não apenas de amigos e familiares, mas de profissionais.”Postar foto sem legenda. Pessoas que trabalham com cegos, seja com esporte ou em áreas sociais e educacionais postam sem colocar nenhuma legenda ou texto que nos auxilie a entender o que tá publicado”.

Para quem trabalha com instituições e empresas com assistência a deficientes visuais ou tem como público-alvo esse grupo, aqui vão dicas para atender e informar melhor no seu serviço:

 

  • Release precisa conter além do texto, uma áudio- descrição da matéria, como se fosse off de rádio;
  • Postagens em mídias sociais precisam conter legenda clara, direta e livre de emoticons e outros símbolos;
  • Em caso de vídeos, seja postado no Facebook ou YouTube, precisa conter a descrição do conteúdo em ordem cronológica e factual;
  • Para material gráfico, é bom produzir dois tipos de peças de braille: uma contida na placa, banner, etc e uma de informação que oriente a distância da outra peça, seja anexada em postes, bancas, portões, janelas, etc;
  • Para coberturas de eventos, seria legal usar a estrutura de rádio, com sonoras e estrutura de matéria com offs e entrevistas.
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Brasão da Instituição. Criação: Wesley da Silva de Paula